quarta-feira, 5 de março de 2014
domingo, 2 de março de 2014
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
http://infancialivredeconsumismo.com/index.php/author/msa_mar/
Somos o que defendemos
5
Texto de Ligia Moreiras Sena*
Durante todo o ano, o pessoal do Movimento Infância Livre de Consumismo dedica seu tempo e seu esforço a algo que, na verdade, todos nós precisávamos estar fazendo, pelo menos nós que reconhecemos a infância como fase fundamental na formação de um ser humano íntegro e saudável: proteger as crianças dos efeitos nefastos do consumo, evitar que as crianças sejam vistas como peças de manobra no jogo injusto do consumismo.
São mulheres que poderiam dedicar o tempo que dedicam à causa às suas questões estritamente particulares, mas fizeram uma escolha que ultrapassa os limites de suas casas e que se baseia em uma coisa muito simples: no fato de que se uma criança pode e merece ser protegida, então todas podem e merecem. Não faz sentido algum protegermos nossos filhos dos ataques publicitários – que são, na verdade, uma das expressões de outros tipos de ataques, tão ou mais danosos – enquanto seus amiguinhos e amiguinhas continuam a ser massacrados todos os dias pelos apelos do consumo.
Muita gente acha que isso é uma grande bobagem. E não é raro ver pessoas que detêm espaços amplos de divulgação desperdiçarem a grande oportunidade de contribuírem para o bem coletivo e substituí-la pelo discurso senso-comum que, muito claramente, serve somente para atrair ainda mais gente, geralmente pessoas imersas no senso-comum, vivendo vidas senso-comum, numa sociedade senso-comum, moldada pelo capitalismo massacrante senso-comum.
Nós vivemos em um mundo capitalista. Embora eu não tenha iPhone, iPad, tablets e outras tecnologias, escrevo agora do meu computador, que foi comprado. Visto uma roupa que foi comprada. Meu café está agora em uma caneca que foi, também, comprada. Mas viver em um mundo capitalista não significa ser moldado e domado por ele. Não significa tornar seus os valores de consumo que delineiam as relações de consumo. Relações humanas não podem ser interpretadas como relações de consumo.
E é aí onde muitas pessoas se perdem: na confusão entre valores de consumo e valores humanos. Entre valores de consumo e valores individuais. E a prova cabal disso é que nos tornamos pessoas que acreditam que amor, integridade, senso de responsabilidade, reflexão crítica e tantas outras coisas fundamentais podem ser compradas. Porque, afinal, comprar é muito mais fácil que ensinar. É muito mais fácil que orientar. É muito mais fácil que dedicar tempo e atenção a mostrar o que é ou não adequado, coerente, responsável. Por isso, tantas e tantas pessoas compram seus filhos desde a mais tenra infância.
“Se você não for à escola, ou se atrasar, ou reclamar, vai pagar R$ 1,00”. O preço por não estar moldado a um sistema: R$ 1,00.
“Se você não jantar ou não almoçar, vai pagar R$ 0,75”. O preço pelo não entendimento da importância do alimento e de se alimentar bem: R$ 0,75.
“Se você ofender, xingar, brigar ou bater, vai pagar R$ 2,00”. O preço pela agressividade não orientada, pela não compreensão de que bater, xingar ou ofender dói no outro tanto quanto em si próprio: R$ 2,00.
Além de mostrar a essas crianças que quase tudo na vida pode ser comprado (e que para o resto existe Mastercard), o que estamos fazendo quando agimos assim? Estamos dizendo: “eu não sei te ensinar, mas te comprar eu sei”. Estamos dizendo: “você é uma mercadoria e, como tal, posso te comprar”. Não há, nessa relação, noções de educação e orientação. Há uma relação mercantil onde um detém o poderio econômico e o outro… é uma mercadoria.
Vamos pensar na relação estabelecida entre um presente e uma criança.
O que um presente produz na criança?
Satisfação. Alegria. Brilho no olhar.
Satisfação, alegria e brilho no olhar podem ser produzidos sem objetos, pela relação que se estabelece entre ela e as pessoas que a rodeiam? Podem. Devem.
Por que, então, transformá-los em capital?
Por que então comprar aquilo que pode ser produzido sem necessidade de colocar, sobre ele, o peso do capital?
Por que achar que datas específicas, criadas exclusivamente para fins capitalistas, pensadas para explorar pessoas, são momentos perfeitos para presentear nossos filhos?
Quem estimulou esse pensamento em você?
Que tipo de valores você está comprando e estimulando que outros comprem?
Por que sentir orgulho e satisfação por sua condição de explorado? E, pior, por que permitir que seus filhos também o sejam?
O Dia das Crianças não foi um dia criado para lembrar que toda e qualquer criança merece ser respeitada, cuidada, protegida – e não ser alvo da exploração capitalista. Não foi um dia criado para lembrar que toda criança tem direitos reconhecidos por uma Declaração Universal. Esse não seria o dia 12 de outubro, mas 20 de novembro, dia em que a Unicef oficializou a Declaração dos Direitos da Criança, em 1959.
O Dia da Criança é apenas uma data comercial, ganhou força no Brasil em 1955 como parte de uma campanha de marketing da Estrela, aquela empresa de brinquedos, que criou a “Semana do Bebê Robusto” (que nome…) com o único objetivo de impulsionar as vendas. E vendeu tanto que o país incorporou a data em seu calendário comemorativo.
Então você, que faz questão de incentivar o consumo nessa data e que se vê como dotado de opinião “própria”, está, na verdade, apenas reproduzindo aquilo que querem que você reproduza: que crianças podem ser exploradas comercialmente por um sistema que não pensa em você nem nelas, e que não há mal nenhum nisso.
Muitas mães e pais estão combatendo os apelos desenfreados, antiéticos e cruéis do consumo que vê na infância um alvo perfeito. E enquanto isso, suas crianças estão crescendo. É provável que se tornem adultos antes que o apelo ao consumismo infantil seja vencido.
Se assim for, o que terá sido importante a essas crianças?
Algo que deveria ser muito simples de supor: os valores transmitidos ao longo de toda sua infância. Crianças que cresceram imersas em um outro modelo, um modelo que não valorizou o COMPRAR, mas o SER. Que não envolve apenas combater o apelo ao consumismo e à publicidade infantil. Que envolve uma compreensão absolutamente diferente do que é a vida, que perpassa a crítica ao consumo exagerado mas, também, a qualidade da alimentação, o tipo de educação, as relações humanas, as relações familiares, o cuidado com o outro, entre todos os demais fatores que, em conjunto, podem ser chamados de vida.
Isso nos leva à frase daquele pacificador tão conhecido: “A felicidade está no caminho”. E ela não pode ser comprada de nenhuma forma. Mesmo que você esteja fazendo muita força para achar que sim.
Quando fazemos as crianças acreditarem que “um dia dedicado a elas” está fundamentalmente atrelado a um “poder de compra” e ao consumo, estamos estimulando a associação entre “ser alguém e ter algo”, o que se traduz em um vazio emocional e na perda da importância das pessoas por seus valores intrínsecos. Pessoas se tornam importantes porque algo é comprado para elas, e não pelo simples fato de que são pessoas. E isso, feito de maneira repetida ao longo de toda sua vida, faz com que a construção de sua identidade esteja associada a compra e a produtos. E é exatamente isso que a sociedade capitalista deseja.
É compreensível que muitas pessoas tenham resistência a problematizar a questão e que não enxerguem o problema do apelo ao consumo que o dia das crianças traz, principalmente quando consideramos a sua própria infância. É muito provável que essa pessoa também tenha crescido em um ambiente sem essa problematização. Mas isso não é um círculo impossível de ser quebrado, todos nós podemos interrompê-lo a qualquer momento e não permitir que nossos filhos sejam mais um elo dessa cadeia.
“A criança aprende que consumir é bom e prazeroso, principalmente quando há exemplo dos pais, a quem imita.
(…) A inserção da criança de dois a sete anos no mundo do consumismo é diretamente proporcional à qualidade e às configurações dos relacionamentos estabelecidos entre os pais e os filhos, de forma que há atitudes dos pais que podem estimular o consumo infantil e atitudes que podem desencorajá-lo. Nesse cenário, é absolutamente relevante considerar o sentimento da infância dos pais, ou seja, quais percepções e concepções de criança eles têm, como tratam a infância e como estabelecem as relações com os filhos. O ambiente familiar como lugar de transmissão é geralmente o primeiro grupo social no qual a criança se insere, e, nesse sentido, as percepções dos pais sobre o que é ser criança são indissociáveis dos relacionamentos estabelecidos com os filhos.
(Tiago Bastos de Moura, Flávio Torrecilas Viana e Viviane Dias Loyola, em “Uma análise de concepções sobre a criança e a inserção da infância no consumismo”)
Que até o próximo 12 de outubro, no intervalo de um ano, nós possamos refletir sobre o que de fato é importante estimular em pessoas que criam outras pessoas e sobre qual nosso papel, de fato, na formação de uma sociedade que realmente respeite a infância. Que possamos mudar hábitos e reivindicar o respeito à infância, como forma de melhorar as relações humanas.
Crianças não precisam de bonecas que fazem xixi e cocô. Crianças precisam de gente que as defenda sempre, o ano inteiro.
Ainda que, ao fazer isso, sejam chamadas de patrulheiras, chatas e radicais. Afinal de contas, foram sempre os patrulheiros chatos e radicais os que conseguiram mudar o que precisava ser mudado. Não os que não veem problema em comprar e vender a infância.
Deixo aqui, nesse pós dia das crianças, meu agradecimento a duas turmas que estão constantemente na luta por seus e nossos filhos: os coletivos Infância Livre de Consumismo e Bater em Criança é Covardia.
Obrigada por tudo, amigos e amigas.
Um grande abraço
*Ligia é mãe da Clara, mora em Florianópolis, estuda a violência no parto e escreve o blog Cientista Que Virou Mãe.
Consumismo
http://intuicao.com/negocios/o-ato-de-consumir/
http://monicoreis.blogspot.com.br/2011/05/cartum-consumismo.html
http://qualidadeemquadrinhos.com.br/blog/?p=467
http://www.moodle.ufba.br/mod/book/view.php?id=79545&chapterid=19689
http://www.canalkids.com.br/bankids/sociedade.htm
Toda sociedade que baseia sua economia na produção e consumo cada vez maior de produtos e serviços é uma sociedade de consumo. E o capitalismo é o sistema em que a sociedade de consumo atingiu o seu auge na história da humanidade.
O LADO "MOCINHO" - A sociedade de consumo aumentou incrivelmente a oferta de todos os tipos de produtos e serviços nos últimos 100 anos. Com isso, a qualidade de vida de parte da humanidade cresceu muito! A ciência, a medicina e a tecnologia nunca foram tão longe!
Apesar de milhões de pessoas não participarem dessa festa, hoje muitas pessoas vivem mais e com mais conforto, comem melhor, viajam para todo lado, compram carros, têm acesso aos avanços tecnológicos (Internet, celular), levam o maior vidão. Exatamente como você, que hoje está navegando tranquilamente pela Web. Você faz parte de uma minoria privilegiada!
O LADO "BANDIDO" - O objetivo do capitalismo é o lucro, certo? E não há nada de errado com ele, pelo contrário! Mas tudo o que é feito com exagero gera um desequilíbrio. Para ganhar cada vez mais dinheiro, os donos dos meios de produção querem que as pessoas comprem sempre mais, sempre mais, sempre mais!
Resultado:
1 - A propaganda acaba "bombardeando" as pessoas, convencendo os consumidores a comprarem coisas que não querem e não precisam... como a história do descaroçador de azeitona! Você nunca viu aqueles programas de vendas pela televisão? "Compre agora o incrível amassador de jabuticabas e ganhe de presente 15 pentes de cachorro!".
2 - A sociedade passa a valorizar o TER, em vez do SER. Muitas vezes, as pessoas passam a ser julgadas pela aparência física, pelas roupas que vestem, carros e casas que possuem, em vez de serem apreciadas por suas qualidades, como sinceridade, coragem, generosidade, e muitas outras.
Resultado:
1 - A propaganda acaba "bombardeando" as pessoas, convencendo os consumidores a comprarem coisas que não querem e não precisam... como a história do descaroçador de azeitona! Você nunca viu aqueles programas de vendas pela televisão? "Compre agora o incrível amassador de jabuticabas e ganhe de presente 15 pentes de cachorro!".
2 - A sociedade passa a valorizar o TER, em vez do SER. Muitas vezes, as pessoas passam a ser julgadas pela aparência física, pelas roupas que vestem, carros e casas que possuem, em vez de serem apreciadas por suas qualidades, como sinceridade, coragem, generosidade, e muitas outras.
3 - O excesso de consumo está destruindo o meio ambiente! Tudo o que se produz e se consome gera um impacto da natureza. Das árvores arrancadas para fazer lápis e papel à poluição gerada por carros, fábricas e esgotos; da água desviada para alimentar usinas hidrelétricas às toneladas de lixoproduzidas por bilhões de pessoas!
E adivinhe quem são os maiores sujões? As pessoas (e os países) que mais consomem. Só para ser ter uma idéia: 1/5 (um quinto) da população do mundo consome 53% dos combustíveis fósseis (gasolina, gás, petróleo) do planeta!Por isso, todos temos o dever de economizar tudo o que pudermos: água,energia elétrica, papel, móveis, brinquedos, livros, até dinheiro.
E adivinhe quem são os maiores sujões? As pessoas (e os países) que mais consomem. Só para ser ter uma idéia: 1/5 (um quinto) da população do mundo consome 53% dos combustíveis fósseis (gasolina, gás, petróleo) do planeta!Por isso, todos temos o dever de economizar tudo o que pudermos: água,energia elétrica, papel, móveis, brinquedos, livros, até dinheiro.
Também devemos procurar um modo de produção sustentável, ou seja, que permita a renovação da natureza. Também devemos poupar nossos semelhantes do sofrimento, ao não desperdiçar comida e doar as coisas que não precisamos mais.
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
O Manifesto Antiveganista
O Manifesto Antiveganista
Preciso de antemão distinguir dois personagens
arquetípicos do movimento de libertação animal: o vegano e o veganista. Ao
final, você leitor, deverá avaliar em qual se encontra
Por Thales Tréz
Antes de qualquer coisa, não tenho nada a perder.
Nunca desejei ter qualquer status exponencial no movimento de direitos animais.
Se de alguma forma posso ser considerados por muit*s como uma referência neste
cenário, foi por conta de minhas atividades de pesquisa acadêmica sobre o tema
da experimentação animal, que, por contingência, me levaram inevitavelmente ao
cenário deste movimento. E é deste convívio, já de longa data, que este texto
surge: como um parto espontâneo, sincero, e que talvez chova no molhado para
alguns. Mas é a minha chuva.
Dito isso, vamos ao que realmente interessa.
Preciso de antemão distinguir dois personagens
arquetípicos do movimento de libertação animal: o vegano e o veganista. Ao
final, você leitor, deverá avaliar em qual se encontra. A crítica que faço, e
que considero de certa forma urgente (dada a expansão do movimento de
libertação animal), é voltada ao veganista.
E vou começar grosso. O que separa um veganista
de um fascista é uma linha muito tênue. São indivíduos altamente apegados às
suas certezas e verdades, e as querem impô-las à sociedade como um todo, e a
toque de caixa. O veganista defende a monocultura do pensar e do agir, e
defendem um absolutismo moral, pois não vê nada entre este absolutismo e a
postura relativista moral - um cachorro morto fácil de chutar (me perdoem o
aforismo). E o instrumento principal deste absolutismo, talvez sua utopia
última, é o discurso recorrente (e simplista) da “coerência” - não obstante
gerador da uma atitude auto-policialesca constante, acaba ainda por provocar o
policiamento do outro. Mas exigir coerência do ser humano, além de grosseiro, é
anti-humano. A coerência não tem meio termo – ela é, ou não é. O “ser coerente”
é um ser acabado, previsível, reto, programado, estável. Por fim,
desinteressante. O “mantra da coerência” no discurso veganista é muito mais uma
referência ao “apego às verdades” do que uma chamada à consciência.
Particularmente, espero coerência apenas das máquinas, mas nunca do ser humano
– este rascunho, projeto titubeante de vida, torto, vagaroso... todas essas
qualidades, acreditem. Neste aspecto, o veganista não vive um paradigma, mas
sim um dogma.
Os veganistas vivem sob a tensão de uma sociedade
hegemonicamente especista, da qual procuram distintivamente se isolar, gerando
uma polarização “veganistas versus humanidade”. Um dos sintomas desse
isolamento é a notável e curiosa endogamia existente nesse meio. Não concebem a
ideia, por exemplo, de namorar um(a) carnívor*, porque, para o veganista, “você
é o que você come” – um absurdo grosseiro e reducionista do que realmente
somos. Tenho dificuldades em me ver reduzido aos meus hábitos alimentares, e
aos valores agregados a eles. Creio que sou muito mais do que isso. Aliás, o
que comeriam os tantos veganistas homofóbicos, reacionários, contrários ao MST
(“comedores de carne”) que conheço? Sim. Somos muito mais do que aquilo que
comemos. E nisso, há pessoas que são muito interessantes e com as quais aprendi
e aprendo muito em relação às qualidades e virtudes que considero nobres para o
ser humano – e se comem carne ou bebem leite, isso é apenas um detalhe (não
para um veganista, obviamente).
Veganistas geralmente tem um comportamento de
gueto – onde encontram um conforto ou refúgio compreensível à parte da “sociedade
especista”, – que lhe impõe costumes e valores caros à sua vivência. Lembro de
uma camiseta com cinco bonecos sorridentes de mão dadas, onde cada um dos
bonecos tinha uma letra da palavra VEGAN. Esse desenho é didático com o que
quero dizer sobre este tipo de comportamento de gueto. No máximo, os veganistas
costumam tolerar as pessoas não-veganas, pois entendem, e muitas vezes
inconscientemente, que têm a missão primeira de converter o “outro diferente” à
sua própria perspectiva. E isso inclui todo mundo: a namorada, o filho, a mãe,
o bisavô gaúcho de 80 anos... e até os esquimós, por que não? Mas até então
elas não fazem parte do seu restrito alfabeto de cinco letras. A alteridade
para o veganista se dá no limite em que esse “outro diferente” possa ser
transformado. Por isso é muitas vezes correto utilizar a expressão “conversão
ao veganismo”, ou mesmo o termo “cair”, quando, por alguma distensão, confessam
com dor que sucumbiram ao pecado da incoerência.
São, assim, missionários de uma verdade. Com a
prática de seus valores e ideias, procuram se eximir do processo histórico que
a humanidade construiu coletivamente, a fim de se livrar imediatamente do atual
fardo insustentável que implica na morte de milhões de animais a cada dia.
Muito da militância veganista, quando não é uma expiação de culpa por ser
humano (e ter vergonha da própria espécie), é uma declaração desesperada de
distinção, de não pertencimento, que gera sofrimento e frustração quando
percebem que o mundo em que estão não é o mundo que desejam para amanhã - by
all means necessary.
Sofrem, por vezes silenciosamente, com o amigo
que come carne, e que por tantas vezes foi alertado sobre as implicações morais
deste hábito, havendo inclusive concordado com as informações que foram
exaustivamente debatidas. O veganista não entende isso. Ou pior: não aceita
isso. “São fracos”, afirmam. Para o veganista, informação é a ferramenta mais
eficaz para a mudança de hábitos. Mas não para por aí. Se o amigo deixar de
comer carne por questões ambientais, não vale. São sujeitos que sofrem de muita
ansiedade. E não deve ser fácil...
O veganista sofre ainda de “miopia moral”, cujo
sintoma é um absolutismo simplista que se resume em a enxergar a humanidade em
preto e branco. Por exemplo, ou você é abolicionista, ou bem-estarista. Partem
de uma receita de um ídolo intelectual, a qual prestam grande reverência: Gary
“Sai Baba” Francione – de onde passaram a adotar a postura de escrachar Peter
Singer, que passou a ser bem-estarista... e incoerente, claro. Francione foi o
responsável por cunhar o termo “esquizofrenia moral”, estigmatizando ainda mais
uma condição psicológica que escapa ao normatismo aceitável em nossa sociedade.
E isso é muito conveniente para o veganista, pois atestam a si próprios uma
declaração de sanidade moral. Por sorte, o tratamento da miopia é bem mais
fácil...
Gosto de descrições anedóticas. Ilustram bem o
que gostaria de dizer sobre este personagem em questão:
Namorei uma garota que era veganista. Em um
episódio, vi 8 oito anos de coerência e rigidez intelectual se desmancharem em
um quase orgasmo quando esta querida companheira se desmanchou juntamente com
um petit-gateau, em um pub qualquer. Ainda que o acordo era que dividiríamos o
dito cujo, me deliciei unicamente com a cena que levou ao completo
desmantelamento daquela sobremesa, sem qualquer intervenção de minha parte. A
cena é indescritível, de tão bela e poética. Ver toda uma estrutura coerente,
altamente sofisticada e lapidada, se desfazer em uma explosão prazerosa de
memórias não apenas organolépticas, mas de vida, e tudo em absoluto silêncio, e
sem culpa. “Ela nunca foi vegana”, afirmam com firmeza amigos veganistas,
quando propositadamente descrevo este episódio. Para estes, isso deve encerrar
o assunto.
Um amigo veganista, havendo encomendado uma pizza
sem queijo, mas acidentalmente recebendo-a com o queijo, jogou a pizza no lixo,
praticamente ao lado de um mendigo. Disse que não poderia dar a pizza ao
mendigo pois estaria promovendo o consumo de derivados animais. Bastante coerente...
com a classe alta, inclusive. Aliás, veganistas são geralmente oriundos de
classes bem abastadas – mas isso é apenas uma observação...
Em um momento de lazer, à beira de um lago, um
amigo veganista repreendeu outros que passeavam/que pretendiam passear de
pedalinho, pois o mesmo tinha o formato de um cisne, o que representaria a
dominação e coisificação da natureza pelo homem. Veganistas não podem dar esse
exemplo. Até hoje não sei se ele estava brincando. Mas é coerente. E tenso.
Uma grande amiga passeava com sua filha em um
shopping quando se deparou com uma exibição pública do documentário
“Terráqueos”. Tentou afastar sua filha das imagens chocantes, procurando
preservá-la do que ela entendia ser uma abordagem inadequada, e potencialmente
traumatizante (quem já viu este documentário sabe do que eu falo). Nessa evasão
consciente, foi abordada com truculência por uma ativista veganista, que a
acusou de conivência com o especismo, e por aí afora. Por isso tremo por
dentro, como educador que sou, quando ouço falar em “educação vegana” no
cenário da libertação animal – especialmente com tal concepção de que imagens e
informações, independentemente de quais, e para quem sejam dirigidas, bastam
para transformar as pessoas. Seria uma “pedagogia do desesperado”: uma
abordagem pobre, ansiosa e agoniada.
Mas vamos ao meu caso. É comum acontecer, após
minhas palestras, abordagens de veganistas que, com tantas coisas por
perguntar, desejam saber se sou vegano. Não sou. E a bem da verdade, não estou
certo sequer se sou vegetariano. Digo isso aos que gostam destes rótulos – como
se eles dissessem muito sobre as pessoas. Me sinto mais confortável em dizer
que estou vegetariano. Em mais de 20 anos de vegetarianismo (onde, diga-se de
passagem, o padrão de consumo de derivados lácteos levaria qualquer indústria à
falência), comi carne em duas ocasiões. Uma acidentalmente (quem nunca!?), e
outra deliberadamente. Nesta última, ao visitar minha irmã em Portugal, fui
recebido pela sua sogra, Dona Carmem, uma portuguesa exímia na arte da cozinha,
segurando uma travessa com um bacalhau. Mesmo quando comia carne, me abstinha
de peixe. Me permitam uma irreverência: à época, preferia eles dentro da água e
vivos, pois fediam muito fora d’água. Mas, mesmo até então vegetariano
convicto, e sem nenhuma inclinação piscívora anterior à minha dieta, não pude
deixar de perceber o sorriso sincero da senhora por sobre aquele bicho, e não
tive qualquer problema em me permitir devorá-lo em convictas garfadas (o azeite
português e o vinho verde ajudaram, confesso). Deixei de ser vegetariano?
Sinceramente, não é o tipo de pergunta que me ocupa ou me importa.
Procuro não me apegar às minhas certezas, e me
permito, em algumas ocasiões, aceitar minha condição humana de incertezas, de
inacabamento e, sobretudo, de incoerência. Chamar isso de “discurso
conveniente” é maldade, pois ignora todo o imenso inconveniente que é levar o
vegetarianismo em nossa sociedade. Prefiro que me chamem de incoerente. Não me
afeta.
Escolhi ser um aprendiz de mim mesmo, e a ser
paciente com as minhas transformações, bem como com as transformações dos
outros, que não seguem nenhuma receita, regra, padrão, ou caminho. E aqui deixo
bem claro: desejo sempre sucesso a qualquer tentativa de transformar o mundo em
que vivemos. Mas sinto que as atitudes deste veganismo fundamentalista presta
muito mais um desserviço à emancipação dos animais e, principalmente, dos
humanos. Estamos de acordo que não poderemos emancipar os animais se não nos
emanciparmos como humanos. Mas enquanto projeto, levado à cabo às suas últimas
consequências, este tipo de veganismo nos conduzirá à a uma sociedade onde a
paz certamente reinará entre as espécies, mas a um custo de padronização do
pensamento e do comportamento que me gera um certo incômodo. Penso que esta paz
pode, e deve, ser alcançada por outras vias, e sempre com o exercício da
compreensão e da paciência. Porque o fim deve ser o meio.
Por sorte, nestas andanças, conheço pessoas que
as identifico como VEGANAS. Conto nos dedos, infelizmente. São humildes,
convivem bem com o “outro diferente”, não ficam posando de vanguarda, se
autopromovendo, desejando a morte de açougueiros, ou criticando o trabalho de
outras entidades de proteção animal que não seguem à a sua política ou linha de
pensamento – porque são incoerentes, ou porque são bem-estaristas. Enfim, não
se envaidecem e não se corrompem com a força dos valores e da luta a à qual, à
sua maneira, se engajam. Não caem nesta armadilha do ego. A eles e a elas, meu
apoio irrestrito. São pessoas belas, com luz, e que naturalmente, e mesmo em
silêncio, militam, pois cativam mais pelo gesto de cuidado, presença e atenção,
do que pelo verbo, truculência e retidão. São tranquilas, em paz com sua
própria espécie e com as outras, e pacientes com a mudança, que já chega aos
poucos, como um somatório dos esforços de todos, coerentes e incoerentes.
Mas que chega aos poucos.
Thales Tréz, fevereiro de 2014
Educador não vegano e incoerente.
http://www.ecoagencia.com.br/?open=artigo&id===AUWZFWZtWOHNlRaNVTWJVU
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